Numa tarde ociosa de domingo, quando bem por acaso fui parar na casa da avó de uma amiga, uma senhora beirando os oitenta anos que passava o tempo quase que sozinha desde a morte do marido, então quando me viu chegar já foi me mandando sentar e comer uma das bolachas de um pote cristal, com a intimidade de quem me conhecia desde que eu era “desse tamanhozinho assim”. Me fez perguntas usuais de avó, sobre o colégio, a saúde, e não lembro ao certo no meio de qual frase ela parou, deu um suspiro que na minha mente metida a cineasta amadora acenderam dois refletores, meus olhos viraram uma câmera mini DV e fizeram primeiro uma ronda na iluminação e quando fechei o plano nela, peguei os sinais da idade, sinais de alguém que teve onze irmãos, mãe dona de casa, pai rico que bebia muito, com fazenda e tudo mais, mas que vendeu o tudo mais e largou toda a família numa cidadezinha bem pequena pra fugir e casar com uma dançarina de bordel. Bem aqui quando repetia que mesmo assim não tinha raiva dele, que tinha só pena, eu quis mostrar os olhos e o suspiro, dava um suspiro cinematográficamente imperdível no final de cada acontecimento.
Me encheu a lente do primeiro sorriso quando me mostrou uma foto de moça, tinha mais ou menos uns 15 anos quando veio pra essa cidade que se encontra desde então, veio pra fazer o ginásio, morava no centro, e estudava em colégio de freira, porque moça direita ia na igreja, estudava em colégio assim, com uniforme de saia comprida e que tinha congregação e não ficava no portão esperando os rapazes passar.
A história de como conheceu o marido, começou quando me apontou pra filmar o quadro da foto do casamento, disse que na época queria estudar e trabalhar, e ele muito interessado nela, passava todas as tardes na casa dela pra levar bombons para a futura sogra, ela fazia charme, mas disse que bem que gostava do interesse, no meio tempo ele sofreu um acidente coisa quase bem séria, foi que pela insistência da mãe mandou uma carta de melhoras pra ele(ela bem tentou procurar a carta nem que fosse pra eu ter tirado foto), visitou-o no hospital junto com a mãe , e no que ele deu alta aceitou de vez o noivado mesmo sabendo que ia ter que cuidar dele pra sempre, e brilhava o olho dela só de dizer que em todos aqueles anos pelo menos uma vez no ano ele tinha que ir no hospital porque as vezes o machucado da perna piorava e ela nunca se abateu, porque como ele nunca reclamava de nada não tinha como deixar de sorrir do lado dele, e eu queria conseguir captar as saudades com a minha lente que ia ter se enchido na hora que ela sem me dizer, com o canto do olho filmado me confessou que aquilo era amor de verdade.
A conversa se alongou por horas, falou rápido sobre a morte do marido porque não quis chorar, e só passou pela história de um dos filhos que perdeu pra poder contar dos outros que moravam ali pertinho, e pra quem ela fazia doces. Doces que ficaram famosos, tanto que ela trabalhava, tinha empregada mas ela que cozinhava, tanto na casa dela quanto das outras noras e também fazia pra ajudar o pessoal da caridade da igreja, porque ela vivia bem, viajava pra europa nos tempos de casada, andou nos primeiros aviões, a vida era boa me suspirava ela.
Contou dos netos, das noras, e aí voltou a falar do pai que ela viu pela última vez, velho, doente num hospital desses pequenos, mas que depois não teve notícia, soube que morreu sem mulher e sem ninguém, e repetiu que tinha pena, com sinceridade.
Perto de acabar a bateria inútil da mini DV, que acaba nas melhores partes, avisei-a e ela me deu um presente de final, repetiu sobre os trabalhos que teve, comentou novamente da morte do marido e como quem se acomoda de vez na poltrona, encostou-se pra trás fechou os olhos deu aquele suspiro clássico e disse com satisfação e gosto “e eu, apesar de tudo, eu estou aqui de pé, até hoje!”.
O único retoque de edição, foi nesse final, que com toda tecnologia de animação enquanto ela fechava esse último bordão fiz o rosto dela ir voltando na idade e finalizei num plano fechado onde ela voltava a ter os 15 anos da foto do ginásio.
3 comentários:
Assim não vale. Tu escreves bem demais, guria. Um dia vou querer os teu autógrafos nos livros que publicares.
Continua. Não para, nunca!
Beijinhos
Dalton
Bahh...
muito bom o material do teu blog,parabéns,consegue ser interessante e ao mesmo tempo despertar um prazer,pelo menos em mim de ler.
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