quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Jaz ali uma moça e alguns segredos.

Ainda no século retrasado, quando as crendices eram ainda mais fortes e os segredos mal contados levaram muitas moças a se atirarem aos rios com os bolsos cheios de pedra, tomarem veneno de cobra e enfim, utilizarem qualquer método que as fizessem sumir dos olhos alheios levando consigo a má fama que contraíram.
Foi então que surgiu no povoado muito pouco povoado de Matita Perê uma mulher que trazia sua filha, já moça, e instalaram-se numa barraca perto da praça, que logo tornou-se muito frequentada pela placa, que com a melhor das intenções de sustentar-se, a mulher colocou na porta prometendo por poucas moedas de ouro livrar qualquer um do peso de seus segredos mais ocultos com a garantia de que jamais cairíam em bocas e ouvidos alheios.
A mulher recebia os clientes na porta e sentava-se ali onde não podia ouvir nada, enquanto quem ouvia os muitos mortos carregados, os abortos de última hora, as noites de amores proibidos e a matança de bichos alheios era sua filha, lá dentro, onde podia escutar tudo e muito bem, e sem jamais dar qualquer palpite se despedia com os olhos que todos diziam ser de um azul reconfortante, chegada até ser considerada santa por alguns por jamais ter se ouvido boatos perigosos e almas perturbadas como as de antigamente perambulando por Matita Perê, mas isto é outro causo para mais tarde.
Numa dessas manhãs de sol e vento ocasional, aparece na barraca dos segredos a mulher mais bem casada e agora mais rica e também mais bela daquelas redondezas quase que quadradas. A mulher do coronel chegou à moça dos olhos azuis com ares de preocupação e enquanto contava seus remorsos ocultos rolavam-lhe as lágrimas daqueles olhos verdes molhando o busto do vestido negro que usava, e diferente das outras que vinham pagou direto à moça filha e não à mulher mãe, que era quem cuidava dos negócios, e lhe abraçou, agradeceu, para logo cobrir o rosto de renda branca e sair dali como um desses pobres demônios fugidos. Foi quando a tarde a barraca foi derrubada pelo coronel bufando de raiva e com a arma em punho apontada para os olhos azuis da moça dos segredos, esse queria saber o que tinha acontecido com sua mulher, que depois daquela manhã não tinha mais sido vista por ninguém. A moça dos segredos em pânico fez alguns gestos mas daquela boca não saiu nenhuma palavra como de costume e com dois tiros na fronte morreu ali levando com ela todos as vergonhas e segredos de Matita Perê, inclusive o da mulher do coronel que horas antes lhe contou ter feito de propósito o aborto que matou o filho do coronel e não tinha sido um simples acidente de saúde como havia espalhado, pois casada sem amor, desde os tempos de moça tinha um amante que a levaria pra bem longe antes do relógio bater meio dia.
A mãe da moça dos segredos tentou fugir na confusão, mas foi pêga pelo Coronel e antes desse lhe dar o mesmo destino que a filha, ela decidiu abrir a boca e contar-lhe que a filha jamais poderia ter falado nada, os sinais que a moça fez antes de ser interrompida pelas balas era pra lhe mostrar que era muda de nascimento e nem se quisesse espalhar pelo mundo tudo que sabia poderia tê-lo feito.

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