sábado, 26 de dezembro de 2009

"Fazer de Carlos, dono da vida de Carlos..."

E foi enquanto escapava de fininho na hora do brinde de Natal que, pela primeira vez, Carlos considerou positivo o fato de morar numa cidade de praia. Já estava com os pés enfiados na areia e a camiseta meio aberta pra sentir o vento lhe entrando pelos poros, quando percebeu que aquela sensação que o levara até ali não era só vazio, era vazio, mas era muito maior, e como não conseguiu nomeá-la decidiu pensar que ali estavam todas as suas frustrações, os seus medos, os mals amores, o vazio e tudo mais que lhe marejavam os olhos a essa altura de tempo.
Nesses 20 anos, Carlos jamais tinha feito coisa alguma pra evitar este momento, que era na verdade um acúmulo de tudo que preferia não tocar, e naquela proporção já nem precisava, eram todos aqueles sentimentos que iam tocando-o e o abraçando com violência. Primeiro lhe veio Letícia à mente, ela era de todas "as elas" a única que estaria ali lhe afagando os cabelos, e ele jamais tinha ao menos se preocupado com os cabelos dela. Logo os projetos que nunca fez, os artigos que nunca publicou, os filmes que nunca filmou e as palavras que jamais disse lhe arranharam o corpo todo, mas o arranharam por dentro para que só ele pudesse ver as marcas profundas da vida, essa que na verdade não era a sua, mas que vivia, ou melhor, ver que na verdade nunca havia vivido, a vida que lhe era de direito.
Agora por completo, tirou a camisa e enxugou as lágrimas, essas que jamais tinha deixado escorrerem pelo rosto, deixou que se esvaíssem pelos olhos até a última gota, até pelo último motivo que podia ter pra se arrepender, e gritou, gritou pra uma praia deserta, todas as dores que nunca gritara antes, e como se fosse consequência do grito o sol arrebentou no céu marcando cinco da manhã do dia 25/12/2009, o dia que Carlos ia guardar pra sempre na memória, não por ser Natal, mas por ter sido o dia que decidiu ali, sob o sol, enterrar naquela areia tudo que lhe machucava por dentro. Sem olhar pra trás calçou os sapatos recolheu a camisa, e tomou o rumo de casa com olhos diferentes, sorria e repetia pra ele que nos seis dias que lhe restavam daquele ano ia começar fazer de Carlos, dono da vida de Carlos e ia também tentar lembrar dos cabelos de Letícia, ou ao menos tentar ligar pra saber como ela passara o Natal.

2 comentários:

Pedro disse...

Fazer da nana dona da vida da nana
e do pedro dono da vida do pedro.. essas tardes chuvosas fazem a gente pensar demais né?
eu me deprimo..
adorei o texto
te amo pogo

space age squirrel hero disse...

texto perfeito!
me identifiquei muito, porém meus 6 dias estão mais longo hahahah
adoro o jeito que tu escreve!
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